{"id":4486,"date":"2026-06-30T16:54:07","date_gmt":"2026-06-30T19:54:07","guid":{"rendered":"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/"},"modified":"2026-06-30T16:54:07","modified_gmt":"2026-06-30T19:54:07","slug":"quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/","title":{"rendered":"Quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher"},"content":{"rendered":"<p>A quest\u00e3o sobre quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher \u00e9 fundamental para compreender a dimens\u00e3o real desse crime e suas implica\u00e7\u00f5es legais. Embora as estat\u00edsticas apontem que mulheres representam a maioria das v\u00edtimas fatais em contextos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, homens tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00edtimas desse fen\u00f4meno, ainda que em propor\u00e7\u00f5es menores e frequentemente subnotificadas. Essa disparidade n\u00e3o apenas reflete padr\u00f5es de viol\u00eancia distintos, mas tamb\u00e9m influencia diretamente na aplica\u00e7\u00e3o da Lei Maria da Penha e nas estrat\u00e9gias de defesa criminal em processos relacionados.<\/p>\n<p>Compreender esses dados \u00e9 essencial para profissionais do Direito Penal que atuam em casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, seja na defesa de acusados ou na prote\u00e7\u00e3o de direitos das v\u00edtimas. A an\u00e1lise das circunst\u00e2ncias, da din\u00e2mica da rela\u00e7\u00e3o e das evid\u00eancias t\u00e9cnicas torna-se ainda mais cr\u00edtica quando h\u00e1 morte envolvida, especialmente em processos que chegam ao Tribunal do J\u00fari. Os n\u00fameros n\u00e3o apenas informam sobre a realidade social, mas orientam as discuss\u00f5es jur\u00eddicas sobre responsabilidade penal, leg\u00edtima defesa e as nuances legais que permeiam esses casos complexos.<\/p>\n<h2>Quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica: homem ou mulher? A resposta dos dados oficiais<\/h2>\n<p>A pergunta \u00e9 direta e a resposta, quando ancorada em dados oficiais, tamb\u00e9m deveria ser: <strong>mulheres morrem proporcionalmente muito mais do que homens em decorr\u00eancia de viol\u00eancia dom\u00e9stica no Brasil<\/strong>. Isso n\u00e3o significa que homens n\u00e3o sejam vitimados \u2014 eles s\u00e3o, e esse ponto merece aten\u00e7\u00e3o espec\u00edfica \u2014, mas os n\u00fameros consolidados por institutos como o IBGE, o Ipea e o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP) apontam de forma consistente para uma assimetria grave e estrutural na mortalidade feminina dentro do ambiente dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o importa n\u00e3o apenas para o debate p\u00fablico, mas sobretudo para o campo jur\u00eddico. Processos envolvendo homic\u00eddios dom\u00e9sticos, feminic\u00eddios e crimes praticados por parceiro \u00edntimo chegam ao <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/o-que-e-crime-doloso-contra-a-vida\/\">Tribunal do J\u00fari como crimes dolosos contra a vida<\/a>, exigindo defesa t\u00e9cnica rigorosa e compreens\u00e3o precisa do contexto f\u00e1tico e normativo. Distorcer os dados n\u00e3o ajuda nem v\u00edtimas nem acusados \u2014 apenas obscurece a realidade que ju\u00edzes, promotores e advogados precisam enfrentar com clareza.<\/p>\n<h2>O que dizem os n\u00fameros: mortes de mulheres vs. mortes de homens no ambiente dom\u00e9stico<\/h2>\n<h3>Dados do IBGE: propor\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios femininos dentro de casa \u00e9 mais que o dobro da masculina<\/h3>\n<p>O IBGE, ao analisar os microdados do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade (SIM) do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, revela uma diferen\u00e7a estrutural no local onde homens e mulheres s\u00e3o assassinados. Enquanto a maior parte dos homic\u00eddios masculinos ocorre em vias p\u00fablicas \u2014 associados a disputas territoriais, tr\u00e1fico e conflitos externos \u2014, <strong>a resid\u00eancia \u00e9 o local de morte mais frequente nos homic\u00eddios femininos<\/strong>. Em algumas an\u00e1lises, mais de 40% das mulheres assassinadas morrem dentro de casa, contra menos de 20% dos homens v\u00edtimas de homic\u00eddio.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a de propor\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o apenas de volume absoluto \u2014 \u00e9 o dado central para entender quem est\u00e1 mais vulner\u00e1vel ao risco letal dentro do ambiente dom\u00e9stico. O lar, que deveria ser espa\u00e7o de prote\u00e7\u00e3o, \u00e9 para a mulher o local estatisticamente mais perigoso quando existe um agressor pr\u00f3ximo.<\/p>\n<h3>Atlas da Viol\u00eancia e dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica: feminic\u00eddios e mortes por parceiro \u00edntimo<\/h3>\n<p>O <em>Atlas da Viol\u00eancia<\/em>, publicado anualmente pelo Ipea em parceria com o FBSP, \u00e9 uma das fontes mais robustas sobre homic\u00eddios no Brasil. Os dados mais recentes apontam que <strong>o Brasil registra entre 3.500 e 4.000 feminic\u00eddios por ano<\/strong>, colocando o pa\u00eds entre os dez com maior taxa absoluta de assassinatos de mulheres no mundo. O FBSP, no <em>Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/em>, complementa esse quadro: em 2022, foram registrados 1.437 feminic\u00eddios consumados \u2014 e estima-se que os homic\u00eddios dolosos de mulheres com motiva\u00e7\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o tipificados como feminic\u00eddio elevem esse n\u00famero consideravelmente.<\/p>\n<p>Mais relevante ainda: <strong>em mais de 60% dos casos de feminic\u00eddio, o autor \u00e9 o parceiro ou ex-parceiro \u00edntimo da v\u00edtima<\/strong>. Isso demonstra que a viol\u00eancia letal contra a mulher no ambiente dom\u00e9stico n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria \u2014 ela segue um padr\u00e3o relacional espec\u00edfico, com escalada progressiva de agress\u00f5es antes do desfecho fatal. Esse padr\u00e3o tem implica\u00e7\u00f5es diretas na instru\u00e7\u00e3o processual de casos levados ao j\u00fari, pois exige an\u00e1lise da din\u00e2mica do relacionamento, hist\u00f3rico de boletins de ocorr\u00eancia e medidas protetivas anteriores.<\/p>\n<h3>Mortes de homens por parceiras: o que os dados realmente mostram (e o que n\u00e3o mostram)<\/h3>\n<p>Homens tamb\u00e9m s\u00e3o mortos por parceiras \u00edntimas \u2014 isso \u00e9 fato documentado. O FBSP registra casos anuais nessa categoria. Contudo, <strong>o volume \u00e9 significativamente menor e o contexto \u00e9 frequentemente distinto<\/strong>. Pesquisas de vitimiza\u00e7\u00e3o indicam que, em parcela relevante dos homic\u00eddios de homens praticados por mulheres no ambiente dom\u00e9stico, h\u00e1 hist\u00f3rico pr\u00e9vio de viol\u00eancia sofrida pela pr\u00f3pria autora \u2014 ou seja, o crime ocorre em contexto de leg\u00edtima defesa real ou putativa, ou como rea\u00e7\u00e3o a anos de agress\u00f5es acumuladas.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o elimina a responsabilidade penal nem generaliza todos os casos, mas demonstra que comparar n\u00fameros brutos sem analisar o contexto relacional leva a conclus\u00f5es equivocadas. A pergunta relevante n\u00e3o \u00e9 apenas &#8220;quantos homens morreram por parceiras&#8221;, mas &#8220;em que circunst\u00e2ncias e como isso se compara ao padr\u00e3o de viol\u00eancia sistem\u00e1tica que vitima mulheres&#8221;.<\/p>\n<h2>Por que a viol\u00eancia dom\u00e9stica mata mais mulheres? Contexto e fatores de risco<\/h2>\n<h3>Diferen\u00e7a entre viol\u00eancia dom\u00e9stica e viol\u00eancia de g\u00eanero: conceitos essenciais para entender os dados<\/h3>\n<p><strong>Viol\u00eancia dom\u00e9stica<\/strong> \u00e9 o conceito mais amplo: abrange qualquer forma de viol\u00eancia praticada no \u00e2mbito da unidade dom\u00e9stica ou familiar, independentemente do sexo da v\u00edtima ou do agressor. <strong>Viol\u00eancia de g\u00eanero<\/strong> \u00e9 a viol\u00eancia exercida contra algu\u00e9m em raz\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero \u2014 no caso das mulheres, estruturada pela desigualdade hist\u00f3rica de poder entre os sexos.<\/p>\n<p>A Lei Maria da Penha (Lei 11.340\/2006) trata especificamente da viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher, reconhecendo que essa viol\u00eancia tem uma dimens\u00e3o de g\u00eanero que exige resposta jur\u00eddica diferenciada. O feminic\u00eddio, tipificado como qualificadora do homic\u00eddio doloso pelo art. 121, \u00a72\u00ba, VI do C\u00f3digo Penal, vai al\u00e9m: criminaliza o assassinato de mulher <em>por raz\u00f5es da condi\u00e7\u00e3o de sexo feminino<\/em>, seja em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica, seja em contexto de menosprezo ou discrimina\u00e7\u00e3o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o feminina. Compreender essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para a <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/tese-de-defesa-para-homicidio-qualificado\/\">constru\u00e7\u00e3o de teses de defesa em homic\u00eddios qualificados<\/a> que envolvam essa qualificadora.<\/p>\n<h3>O papel do parceiro \u00edntimo: quem comete os homic\u00eddios dentro de casa<\/h3>\n<p>A literatura criminol\u00f3gica e os dados nacionais convergem: <strong>o principal agente de viol\u00eancia letal contra a mulher dentro de casa \u00e9 o parceiro ou ex-parceiro<\/strong>. A recusa em aceitar o fim do relacionamento, o ci\u00fame patol\u00f3gico, o controle coercitivo e a incapacidade de lidar com a autonomia feminina s\u00e3o fatores de risco documentados para o feminic\u00eddio \u00edntimo. Esse padr\u00e3o \u00e9 t\u00e3o consistente que protocolos de avalia\u00e7\u00e3o de risco \u2014 como o utilizado pelas Delegacias da Mulher \u2014 mensuram especificamente a periculosidade do parceiro como preditor de homic\u00eddio.<\/p>\n<p>No caso dos homens, a viol\u00eancia letal dom\u00e9stica tem perfil diferente: o agressor n\u00e3o \u00e9 predominantemente a parceira \u00edntima. Homens s\u00e3o mortos em maior escala por outros homens, em contextos externos ao dom\u00e9stico. Quando a parceira \u00e9 a autora, como j\u00e1 mencionado, o contexto de viol\u00eancia pr\u00e9via sofrida por ela aparece com frequ\u00eancia relevante nos inqu\u00e9ritos e processos.<\/p>\n<h3>Subnotifica\u00e7\u00e3o: por que homens e mulheres deixam de registrar viol\u00eancia dom\u00e9stica<\/h3>\n<p>A subnotifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema que afeta ambos os sexos, mas por raz\u00f5es distintas. <strong>Mulheres deixam de registrar<\/strong> principalmente por medo de repres\u00e1lias do agressor, depend\u00eancia econ\u00f4mica, vergonha, falta de acesso a servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o e, em muitos casos, por acreditarem que a situa\u00e7\u00e3o vai melhorar. <strong>Homens deixam de registrar<\/strong> sobretudo por constrangimento social, estigma associado \u00e0 masculinidade e desconhecimento de que tamb\u00e9m podem ser protegidos pela legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A subnotifica\u00e7\u00e3o masculina, embora real, n\u00e3o inverte a equa\u00e7\u00e3o dos dados dispon\u00edveis. Mesmo estimando subregistros, as pesquisas de vitimiza\u00e7\u00e3o \u2014 que capturam viol\u00eancia n\u00e3o registrada \u2014 confirmam a assimetria de g\u00eanero na viol\u00eancia dom\u00e9stica grave. O problema da subnotifica\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas e acesso \u00e0 justi\u00e7a para todos os grupos, sem que isso signifique equiparar realidades estruturalmente distintas.<\/p>\n<h2>Desinforma\u00e7\u00e3o sobre o tema: como dados s\u00e3o distorcidos para minimizar a viol\u00eancia contra a mulher<\/h2>\n<h3>O mito de que &#8216;mais mulheres matam homens do que o contr\u00e1rio&#8217;: checagem completa<\/h3>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o circula com frequ\u00eancia em redes sociais, geralmente acompanhada de recortes parciais de dados ou de compara\u00e7\u00f5es metodologicamente inadequadas. A checagem \u00e9 direta: <strong>\u00e9 falso<\/strong>. Todos os grandes bancos de dados brasileiros \u2014 SIM\/Datasus, Atlas da Viol\u00eancia, Anu\u00e1rio do FBSP \u2014 mostram que homens matam mulheres em n\u00famero muito superior ao inverso, tanto em termos absolutos quanto proporcionais ao universo de cada grupo.<\/p>\n<p>O equ\u00edvoco costuma surgir de tr\u00eas fontes principais: (1) confus\u00e3o entre viol\u00eancia dom\u00e9stica e viol\u00eancia em geral; (2) uso de dados de agress\u00f5es f\u00edsicas n\u00e3o letais sem distinguir gravidade; (3) cita\u00e7\u00e3o de estudos internacionais fora de contexto ou com metodologia n\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 realidade brasileira. Nenhuma dessas fontes sustenta a afirma\u00e7\u00e3o quando os dados s\u00e3o lidos com rigor metodol\u00f3gico.<\/p>\n<h3>Como interpretar estat\u00edsticas de viol\u00eancia dom\u00e9stica sem cair em fal\u00e1cias<\/h3>\n<p>Algumas diretrizes b\u00e1sicas para leitura cr\u00edtica dos dados:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Diferencie viol\u00eancia letal de n\u00e3o letal:<\/strong> as propor\u00e7\u00f5es podem variar entre essas categorias, e mistur\u00e1-las distorce qualquer an\u00e1lise.<\/li>\n<li><strong>Observe o contexto relacional:<\/strong> quem agrediu quem primeiro, qual \u00e9 o hist\u00f3rico do relacionamento e qual \u00e9 a din\u00e2mica de poder envolvida s\u00e3o vari\u00e1veis essenciais.<\/li>\n<li><strong>Verifique a fonte:<\/strong> dados do SIM, IBGE, Ipea e FBSP t\u00eam metodologia audit\u00e1vel. Infogr\u00e1ficos sem refer\u00eancia n\u00e3o t\u00eam.<\/li>\n<li><strong>N\u00e3o confunda simetria num\u00e9rica com equival\u00eancia estrutural:<\/strong> mesmo que houvesse igual n\u00famero de v\u00edtimas de ambos os sexos, os padr\u00f5es causais, os fatores de risco e as respostas jur\u00eddicas adequadas seriam distintos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>No campo jur\u00eddico, essa leitura cr\u00edtica \u00e9 indispens\u00e1vel. Casos de <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/defesa-preliminar-homicidio-qualificado\/\">defesa preliminar em homic\u00eddio qualificado<\/a> que envolvam discuss\u00e3o sobre feminic\u00eddio exigem que o advogado compreenda profundamente os dados e os contextos para construir argumenta\u00e7\u00e3o s\u00f3lida perante o juiz e, eventualmente, perante o Conselho de Senten\u00e7a.<\/p>\n<h2>Homens tamb\u00e9m sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica? O que os dados dizem sobre v\u00edtimas masculinas<\/h2>\n<h3>Tipos de viol\u00eancia dom\u00e9stica sofrida por homens: dados e contexto<\/h3>\n<p>Sim, homens sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica. O FBSP registra que <strong>cerca de 20% a 25% das v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica que registram ocorr\u00eancia s\u00e3o do sexo masculino<\/strong>, com varia\u00e7\u00e3o entre estados. As formas mais comuns relatadas por homens incluem viol\u00eancia psicol\u00f3gica, patrimonial e, em menor escala, f\u00edsica. A viol\u00eancia letal \u2014 homic\u00eddio praticado por parceira \u2014 representa uma fra\u00e7\u00e3o pequena do total de homic\u00eddios masculinos, diferentemente do padr\u00e3o feminino.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o diminui o sofrimento das v\u00edtimas masculinas nem a necessidade de prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica para elas. Significa apenas que o perfil da viol\u00eancia dom\u00e9stica sofrida por homens difere, em escala e em padr\u00e3o, daquele sofrido por mulheres \u2014 o que tem implica\u00e7\u00f5es para pol\u00edticas p\u00fablicas e para a resposta do sistema de justi\u00e7a.<\/p>\n<h3>Prote\u00e7\u00e3o legal para homens v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica no Brasil<\/h3>\n<p>A Lei Maria da Penha, por sua literalidade e pela jurisprud\u00eancia consolidada do STJ, aplica-se exclusivamente a v\u00edtimas mulheres. Homens v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica n\u00e3o s\u00e3o amparados por esse diploma legal. Contudo, <strong>n\u00e3o ficam desprotegidos<\/strong>: podem registrar boletim de ocorr\u00eancia, representar criminalmente pelo crime de les\u00e3o corporal (art. 129 do CP), vias de fato, amea\u00e7a ou outros tipos penais aplic\u00e1veis, al\u00e9m de requerer medidas cautelares protetivas com base no C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n<p>O Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, o Estatuto do Idoso e outras legisla\u00e7\u00f5es espec\u00edficas tamb\u00e9m oferecem prote\u00e7\u00e3o a homens em situa\u00e7\u00f5es particulares de vulnerabilidade no ambiente dom\u00e9stico. A aus\u00eancia de uma lei espec\u00edfica para v\u00edtimas masculinas \u00e9 uma lacuna reconhecida no debate jur\u00eddico, mas n\u00e3o implica aus\u00eancia total de tutela.<\/p>\n<h2>Resumo comparativo: mortalidade por viol\u00eancia dom\u00e9stica por sexo no Brasil<\/h2>\n<p>Para consolidar os dados apresentados ao longo do texto, o quadro comparativo abaixo sintetiza os principais pontos:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Local do homic\u00eddio:<\/strong> mulheres s\u00e3o mortas predominantemente dentro de casa; homens, predominantemente em vias p\u00fablicas.<\/li>\n<li><strong>Autor do homic\u00eddio dom\u00e9stico:<\/strong> no caso das mulheres, o parceiro ou ex-parceiro \u00edntimo responde por mais de 60% dos casos; no caso dos homens, a parceira n\u00e3o \u00e9 o perfil predominante do agressor.<\/li>\n<li><strong>Volume de feminic\u00eddios:<\/strong> entre 1.400 e 4.000 por ano, a depender da metodologia de classifica\u00e7\u00e3o utilizada (tipificados ou estimados).<\/li>\n<li><strong>Homens mortos por parceiras:<\/strong> n\u00famero documentado, por\u00e9m significativamente menor, com contexto relacional frequentemente distinto.<\/li>\n<li><strong>Subnotifica\u00e7\u00e3o:<\/strong> afeta ambos os sexos, mas por raz\u00f5es e em propor\u00e7\u00f5es diferentes.<\/li>\n<li><strong>Prote\u00e7\u00e3o legal:<\/strong> mulheres contam com a Lei Maria da Penha; homens disp\u00f5em de prote\u00e7\u00e3o penal geral, sem lei espec\u00edfica.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Casos de homic\u00eddio dom\u00e9stico \u2014 seja feminic\u00eddio ou homic\u00eddio praticado por mulher contra parceiro \u2014 s\u00e3o julgados pelo <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/o-que-e-plenitude-de-defesa-no-tribunal-do-juri\/\">Tribunal do J\u00fari<\/a>, onde o princ\u00edpio da plenitude de defesa garante ao r\u00e9u uma amplitude argumentativa maior do que no processo penal comum. Compreender os dados reais sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica \u00e9 parte essencial da prepara\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para esses julgamentos.<\/p>\n<h2>FAQ<\/h2>\n<h3>Quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica no Brasil, homem ou mulher?<\/h3>\n<p>Mulheres morrem proporcionalmente muito mais do que homens em decorr\u00eancia de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Os dados do IBGE, do Ipea e do FBSP mostram que a resid\u00eancia \u00e9 o principal local de morte nos homic\u00eddios femininos, enquanto nos masculinos predominam as vias p\u00fablicas. O feminic\u00eddio \u2014 homic\u00eddio de mulher por raz\u00f5es de g\u00eanero \u2014 registra entre 1.400 e 4.000 casos anuais no Brasil, a depender da metodologia utilizada.<\/p>\n<h3>\u00c9 verdade que mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres?<\/h3>\n<p>N\u00e3o. Essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa e n\u00e3o encontra respaldo em nenhuma fonte oficial brasileira. Todos os bancos de dados dispon\u00edveis \u2014 SIM\/Datasus, Atlas da Viol\u00eancia, Anu\u00e1rio do FBSP \u2014 demonstram que homens matam mulheres em n\u00famero muito superior ao inverso, tanto em termos absolutos quanto proporcionais. A afirma\u00e7\u00e3o costuma derivar de leituras parciais, metodologicamente equivocadas ou deliberadamente distorcidas dos dados.<\/p>\n<h3>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre feminic\u00eddio e homic\u00eddio dom\u00e9stico?<\/h3>\n<p>Homic\u00eddio dom\u00e9stico \u00e9 qualquer homic\u00eddio praticado no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas ou familiares, independentemente do sexo da v\u00edtima ou da motiva\u00e7\u00e3o. Feminic\u00eddio \u00e9 uma qualificadora espec\u00edfica do homic\u00eddio doloso (art. 121, \u00a72\u00ba, VI do C\u00f3digo Penal), aplic\u00e1vel quando o crime \u00e9 praticado contra mulher <em>por raz\u00f5es da condi\u00e7\u00e3o de sexo feminino<\/em> \u2014 em contexto de viol\u00eancia dom\u00e9stica ou de menosprezo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o feminina. Todo feminic\u00eddio \u00e9 um <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/o-que-e-crime-doloso-contra-a-vida\/\">crime doloso contra a vida<\/a>, mas nem todo homic\u00eddio dom\u00e9stico \u00e9 feminic\u00eddio.<\/p>\n<h3>Homens podem ser v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica e acionar a Justi\u00e7a?<\/h3>\n<p>Sim. Embora a Lei Maria da Penha n\u00e3o se aplique a v\u00edtimas do sexo masculino, homens podem registrar boletim de ocorr\u00eancia e acionar o sistema de justi\u00e7a criminal com base nos tipos penais comuns \u2014 les\u00e3o corporal, amea\u00e7a, vias de fato, entre outros. Medidas cautelares protetivas tamb\u00e9m podem ser requeridas com fundamento no C\u00f3digo de Processo Penal. A aus\u00eancia de uma lei espec\u00edfica n\u00e3o significa aus\u00eancia de tutela jur\u00eddica.<\/p>\n<h3>Quais s\u00e3o as fontes mais confi\u00e1veis para dados sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica no Brasil?<\/h3>\n<p>As principais fontes com metodologia audit\u00e1vel s\u00e3o: o Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade (SIM), vinculado ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e processado pelo Datasus; o <em>Atlas da Viol\u00eancia<\/em>, publicado pelo Ipea em parceria com o FBSP; o <em>Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/em>, do FBSP; e as pesquisas de vitimiza\u00e7\u00e3o do IBGE. Essas fontes utilizam metodologias distintas e complementares, e sua leitura conjunta oferece o panorama mais preciso dispon\u00edvel sobre viol\u00eancia dom\u00e9stica no pa\u00eds.<\/p>\n<h3>Por que a propor\u00e7\u00e3o de mulheres mortas dentro de casa \u00e9 maior do que a de homens?<\/h3>\n<p>Porque a viol\u00eancia dom\u00e9stica contra a mulher tem uma dimens\u00e3o estrutural de g\u00eanero: o principal agressor \u00e9 o parceiro \u00edntimo, que tem acesso direto e cont\u00ednuo \u00e0 v\u00edtima no espa\u00e7o dom\u00e9stico. O controle coercitivo, o ci\u00fame e a recusa em aceitar a separa\u00e7\u00e3o s\u00e3o fatores de risco documentados para o feminic\u00eddio \u00edntimo. J\u00e1 os homens s\u00e3o vitimados letalmente sobretudo em contextos externos ao dom\u00e9stico, por outros homens, em din\u00e2micas de conflito distintas. Essa diferen\u00e7a de padr\u00e3o \u2014 e n\u00e3o apenas de n\u00famero \u2014 explica a assimetria nas propor\u00e7\u00f5es de mortes dentro de casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descubra quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher e entenda as implica\u00e7\u00f5es legais dessa realidade para o Direito Penal.<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":4479,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-4486","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v20.11 (Yoast SEO v20.9) - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher - Jo\u00e3o Carlos Pinheiro<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Descubra quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher e entenda as implica\u00e7\u00f5es legais dessa realidade para o Direito Penal.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Jo\u00e3o Carlos Pinheiro\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/joaocarlospinheiroadv\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-06-30T19:54:07+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/banner-joaoAAp.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1600\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"667\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"adminartemis\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"adminartemis\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"15 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/\"},\"author\":{\"name\":\"adminartemis\",\"@id\":\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/#\/schema\/person\/84490dbc314c34f414b927b29b6bf1de\"},\"headline\":\"Quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher\",\"datePublished\":\"2026-06-30T19:54:07+00:00\",\"dateModified\":\"2026-06-30T19:54:07+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/\"},\"wordCount\":3031,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/#organization\"},\"articleSection\":[\"Uncategorized\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/\",\"url\":\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/quem-morre-mais-por-violencia-domestica-homem-ou-mulher\/\",\"name\":\"Quem morre mais por viol\u00eancia dom\u00e9stica homem ou mulher - 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