{"id":4166,"date":"2026-04-15T19:30:01","date_gmt":"2026-04-15T22:30:01","guid":{"rendered":"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/387-iv-do-codigo-de-processo-penal\/"},"modified":"2026-04-15T19:30:09","modified_gmt":"2026-04-15T22:30:09","slug":"387-iv-do-codigo-de-processo-penal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/387-iv-do-codigo-de-processo-penal\/","title":{"rendered":"Art. 387, IV do CPP: O Que Diz a Lei?"},"content":{"rendered":"<p>O inciso IV do artigo 387 do C\u00f3digo de Processo Penal determina que, ao proferir senten\u00e7a condenat\u00f3ria, o juiz deve fixar um valor m\u00ednimo para repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela infra\u00e7\u00e3o penal, considerando os preju\u00edzos sofridos pelo ofendido. Essa regra transforma a senten\u00e7a criminal em um t\u00edtulo executivo que pode ser cobrado diretamente na esfera c\u00edvel, sem necessidade de uma nova a\u00e7\u00e3o de conhecimento para reconhecer a responsabilidade.<\/p>\n<p>Quem pesquisa esse dispositivo geralmente quer entender se a fixa\u00e7\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria, como ela funciona na pr\u00e1tica, quem pode se beneficiar e como o r\u00e9u pode contestar o valor estabelecido. S\u00e3o d\u00favidas leg\u00edtimas, especialmente porque esse cap\u00edtulo da senten\u00e7a gera consequ\u00eancias patrimoniais diretas e independentes da pena aplicada.<\/p>\n<p>Este artigo responde todas essas quest\u00f5es de forma objetiva, abordando desde o texto legal at\u00e9 as posi\u00e7\u00f5es consolidadas do STJ e a aplica\u00e7\u00e3o do dispositivo em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, como crimes ambientais e crimes praticados por r\u00e9us hipossuficientes.<\/p>\n<h2>O Que \u00e9 o Artigo 387 do C\u00f3digo de Processo Penal?<\/h2>\n<p>O artigo 387 do CPP disciplina os requisitos que o juiz deve observar ao redigir a senten\u00e7a condenat\u00f3ria. Ele funciona como um roteiro legal que orienta o conte\u00fado m\u00ednimo obrigat\u00f3rio de toda decis\u00e3o que reconhece a culpa do r\u00e9u e aplica uma pena.<\/p>\n<p>O dispositivo re\u00fane determina\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde a men\u00e7\u00e3o \u00e0s circunst\u00e2ncias agravantes e atenuantes at\u00e9 a fixa\u00e7\u00e3o do regime inicial de cumprimento da pena. O inciso IV, inserido nesse contexto, trouxe uma inova\u00e7\u00e3o importante: a obriga\u00e7\u00e3o de o juiz penal enfrentar tamb\u00e9m a quest\u00e3o c\u00edvel decorrente do crime, ainda que de forma m\u00ednima.<\/p>\n<p>Antes dessa previs\u00e3o expressa, a v\u00edtima precisava aguardar o tr\u00e2nsito em julgado da condena\u00e7\u00e3o criminal para, s\u00f3 ent\u00e3o, ajuizar uma a\u00e7\u00e3o civil de repara\u00e7\u00e3o de danos com base na <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/artigo-30-do-codigo-de-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">responsabilidade civil decorrente do il\u00edcito penal<\/a>. Com o inciso IV, o pr\u00f3prio ju\u00edzo criminal j\u00e1 estabelece um patamar m\u00ednimo de repara\u00e7\u00e3o, acelerando o acesso da v\u00edtima \u00e0 compensa\u00e7\u00e3o pelo dano sofrido.<\/p>\n<h3>Qual a estrutura completa do artigo 387 do CPP?<\/h3>\n<p>O artigo 387 \u00e9 composto por incisos e par\u00e1grafos que organizam o conte\u00fado da senten\u00e7a condenat\u00f3ria. Em s\u00edntese, o juiz deve:<\/p>\n<ul>\n<li>Mencionar as circunst\u00e2ncias agravantes ou atenuantes definidas no C\u00f3digo Penal (incisos I e II);<\/li>\n<li>Aplicar as penas de acordo com essas circunst\u00e2ncias (inciso III);<\/li>\n<li>Fixar valor m\u00ednimo para repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela infra\u00e7\u00e3o (inciso IV);<\/li>\n<li>Atender \u00e0s medidas de seguran\u00e7a cab\u00edveis (inciso V);<\/li>\n<li>Pronunciar-se sobre a suspens\u00e3o condicional da pena, quando aplic\u00e1vel (inciso VI);<\/li>\n<li>Determinar o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade (inciso VII).<\/li>\n<\/ul>\n<p>Os par\u00e1grafos do artigo tratam, entre outros pontos, do c\u00f4mputo do tempo de pris\u00e3o provis\u00f3ria para fins de determina\u00e7\u00e3o do regime inicial. Cada um desses elementos forma um cap\u00edtulo aut\u00f4nomo da senten\u00e7a, o que tem relev\u00e2ncia pr\u00e1tica para a possibilidade de impugnar separadamente cada ponto via recurso.<\/p>\n<h3>O que determina especificamente o inciso IV do art. 387?<\/h3>\n<p>O inciso IV estabelece que o juiz, ao condenar, deve fixar um <strong>valor m\u00ednimo para repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela infra\u00e7\u00e3o<\/strong>, levando em conta os preju\u00edzos sofridos pelo ofendido. O texto \u00e9 claro ao usar a express\u00e3o &#8220;valor m\u00ednimo&#8221;, o que significa que n\u00e3o se trata de uma liquida\u00e7\u00e3o definitiva do dano, mas de um piso indenizat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Esse valor passa a integrar a senten\u00e7a condenat\u00f3ria como um cap\u00edtulo pr\u00f3prio e, com o tr\u00e2nsito em julgado, converte-se automaticamente em t\u00edtulo executivo judicial. A v\u00edtima, portanto, pode executar esse montante diretamente no ju\u00edzo c\u00edvel, sem precisar provar novamente a responsabilidade do r\u00e9u.<\/p>\n<p>A norma imp\u00f5e ao magistrado o dever de fundamentar a fixa\u00e7\u00e3o desse valor com base nas provas produzidas no processo criminal. N\u00e3o \u00e9 suficiente mencionar o dispositivo na senten\u00e7a sem indicar os elementos que justificam o montante estabelecido.<\/p>\n<h2>O Que \u00e9 a Fixa\u00e7\u00e3o de Valor M\u00ednimo de Repara\u00e7\u00e3o do Dano?<\/h2>\n<p>A fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo \u00e9 o ato pelo qual o juiz penal, na pr\u00f3pria senten\u00e7a condenat\u00f3ria, determina um montante que o r\u00e9u dever\u00e1 pagar \u00e0 v\u00edtima a t\u00edtulo de repara\u00e7\u00e3o civil pelos danos causados pelo crime. Essa provid\u00eancia decorre diretamente do inciso IV do art. 387 e n\u00e3o depende de a\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>O valor fixado n\u00e3o pretende ser exaustivo. Ele representa um <strong>patamar m\u00ednimo<\/strong>, calculado a partir das provas dispon\u00edveis no processo penal, que pode ser posteriormente complementado em a\u00e7\u00e3o civil. A ideia central \u00e9 garantir \u00e0 v\u00edtima um ressarcimento imediato e simplificado, aproveitando a instru\u00e7\u00e3o criminal j\u00e1 realizada.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o juiz analisa documentos, laudos periciais, depoimentos e outros elementos constantes dos autos para estimar o preju\u00edzo m\u00ednimo demonstrado. Danos que n\u00e3o foram suficientemente provados no processo criminal n\u00e3o podem embasar o valor fixado, mas podem ser objeto de aprecia\u00e7\u00e3o posterior na esfera c\u00edvel.<\/p>\n<h3>Como o juiz fixa o valor m\u00ednimo na senten\u00e7a condenat\u00f3ria?<\/h3>\n<p>O magistrado fixa o valor com base nas provas produzidas durante a instru\u00e7\u00e3o criminal. Laudos de avalia\u00e7\u00e3o de bens, per\u00edcias de dano, notas fiscais juntadas aos autos, depoimentos de testemunhas e documentos que demonstrem o preju\u00edzo material s\u00e3o os principais elementos utilizados.<\/p>\n<p>Quando o dano \u00e9 exclusivamente moral, a fixa\u00e7\u00e3o se torna mais complexa porque n\u00e3o h\u00e1 par\u00e2metro objetivo. Nesses casos, o juiz aplica crit\u00e9rios de razoabilidade e proporcionalidade, considerando a gravidade do crime, a extens\u00e3o do sofrimento da v\u00edtima e as condi\u00e7\u00f5es do condenado.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que o juiz n\u00e3o pode arbitrar um valor sem qualquer base nos autos. A fundamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 exig\u00eancia constitucional e processual. Uma senten\u00e7a que fixe valor sem justificativa adequada est\u00e1 sujeita \u00e0 reforma em sede recursal.<\/p>\n<h3>A fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo \u00e9 obrigat\u00f3ria ou facultativa?<\/h3>\n<p>A fixa\u00e7\u00e3o \u00e9 <strong>obrigat\u00f3ria<\/strong> sempre que houver nos autos elementos que permitam ao juiz estimar o dano. A reda\u00e7\u00e3o do inciso IV n\u00e3o deixa margem para discricionariedade quando o preju\u00edzo est\u00e1 demonstrado: o legislador usou o verbo &#8220;fixar\u00e1&#8221;, que indica imperatividade.<\/p>\n<p>No entanto, a jurisprud\u00eancia reconhece que a omiss\u00e3o do juiz quanto ao inciso IV n\u00e3o torna a senten\u00e7a nula. O que ocorre, nesses casos, \u00e9 que a parte interessada pode provocar o ju\u00edzo por meio de embargos de declara\u00e7\u00e3o para suprir a omiss\u00e3o, ou questionar o ponto em recurso de apela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o houver provas m\u00ednimas do dano nos autos, o juiz pode deixar de fixar o valor, desde que justifique essa escolha. A aus\u00eancia de elementos probat\u00f3rios \u00e9 a principal hip\u00f3tese em que a n\u00e3o fixa\u00e7\u00e3o encontra respaldo legal e jurisprudencial.<\/p>\n<h3>O valor fixado no art. 387, IV substitui a a\u00e7\u00e3o civil ex delicto?<\/h3>\n<p>N\u00e3o. O valor m\u00ednimo fixado na senten\u00e7a criminal n\u00e3o substitui a <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/artigo-46-do-codigo-de-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a\u00e7\u00e3o civil ex delicto<\/a>. As duas vias coexistem e t\u00eam finalidades complementares.<\/p>\n<p>O que o inciso IV faz \u00e9 antecipar, dentro do pr\u00f3prio processo criminal, um patamar m\u00ednimo de repara\u00e7\u00e3o que a v\u00edtima pode executar imediatamente ap\u00f3s o tr\u00e2nsito em julgado. Mas se o dano real for maior do que o valor fixado na senten\u00e7a, a v\u00edtima tem pleno direito de ajuizar a\u00e7\u00e3o c\u00edvel para pleitear a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o civil ex delicto continua sendo o instrumento adequado para a liquida\u00e7\u00e3o integral dos danos, especialmente quando o processo criminal n\u00e3o reuniu provas suficientes para dimensionar toda a extens\u00e3o do preju\u00edzo. As duas esferas se complementam, n\u00e3o se excluem.<\/p>\n<h2>Quem Pode Ser Beneficiado pelo Art. 387, IV do CPP?<\/h2>\n<p>O principal benefici\u00e1rio da fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo \u00e9 o <strong>ofendido<\/strong>, ou seja, a v\u00edtima direta do crime. Ela \u00e9 quem sofreu o dano decorrente da infra\u00e7\u00e3o e, portanto, tem legitimidade para executar o valor estabelecido na senten\u00e7a condenat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nos crimes com v\u00edtimas identificadas, como furto, estelionato, les\u00e3o corporal e homic\u00eddio, a identifica\u00e7\u00e3o do benefici\u00e1rio \u00e9 direta. Em crimes que atingem interesses coletivos ou difusos, como os crimes ambientais, a quest\u00e3o se torna mais complexa e exige an\u00e1lise espec\u00edfica, que ser\u00e1 abordada em se\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do ofendido direto, seus sucessores tamb\u00e9m podem se beneficiar do valor fixado na senten\u00e7a, especialmente nos casos em que o crime resultou em morte. Herdeiros e dependentes da v\u00edtima t\u00eam legitimidade para executar o t\u00edtulo constitu\u00eddo na senten\u00e7a criminal.<\/p>\n<h3>O ofendido precisa fazer pedido expresso para receber a indeniza\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p>Essa \u00e9 uma das quest\u00f5es mais debatidas na aplica\u00e7\u00e3o do inciso IV. A posi\u00e7\u00e3o dominante nos tribunais superiores \u00e9 de que o juiz pode fixar o valor m\u00ednimo de of\u00edcio, sem necessidade de pedido expresso da v\u00edtima ou do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>O fundamento dessa interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 na pr\u00f3pria reda\u00e7\u00e3o do dispositivo, que atribui ao juiz o dever de fixar o valor independentemente de provoca\u00e7\u00e3o. O car\u00e1ter imperativo da norma afasta a necessidade de requerimento formal.<\/p>\n<p>No entanto, a aus\u00eancia de pedido expresso pode dificultar a fixa\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica, porque o contradit\u00f3rio fica mais restrito. Quando a v\u00edtima ou o Minist\u00e9rio P\u00fablico formulam pedido espec\u00edfico com elementos probat\u00f3rios, o juiz tem base mais s\u00f3lida para estabelecer o valor e o r\u00e9u tem oportunidade clara de se defender quanto a esse ponto.<\/p>\n<h3>O r\u00e9u pobre pode ser isento da indeniza\u00e7\u00e3o m\u00ednima?<\/h3>\n<p>A hipossufici\u00eancia econ\u00f4mica do r\u00e9u n\u00e3o \u00e9 causa de isen\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o de reparar o dano fixada na senten\u00e7a. O inciso IV n\u00e3o prev\u00ea qualquer exce\u00e7\u00e3o baseada na condi\u00e7\u00e3o financeira do condenado.<\/p>\n<p>O que pode ocorrer \u00e9 que a condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do r\u00e9u influencie o <em>quantum<\/em> fixado quando se trata de dano moral, j\u00e1 que a capacidade econ\u00f4mica do ofensor \u00e9 um dos crit\u00e9rios tradicionais de arbitramento. Mas isso n\u00e3o significa isen\u00e7\u00e3o, e sim modula\u00e7\u00e3o do valor.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a execu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo pode ser frustrada pela aus\u00eancia de bens do condenado, mas isso \u00e9 uma quest\u00e3o de efetividade da execu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de inexist\u00eancia da obriga\u00e7\u00e3o. O r\u00e9u continuar\u00e1 sendo devedor, e a cobran\u00e7a pode ser retomada se ele vier a ter patrim\u00f4nio no futuro.<\/p>\n<h2>Como o STJ e os Tribunais Interpretam o Art. 387, IV?<\/h2>\n<p>O Superior Tribunal de Justi\u00e7a consolidou algumas posi\u00e7\u00f5es importantes sobre o inciso IV ao longo dos anos, especialmente no que se refere \u00e0 obrigatoriedade da fixa\u00e7\u00e3o, aos limites do valor e \u00e0s formas de impugna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A jurisprud\u00eancia do STJ reconhece que o dispositivo tem aplica\u00e7\u00e3o ampla e que a omiss\u00e3o do juiz configura error in judicando, pass\u00edvel de corre\u00e7\u00e3o em grau recursal. Ao mesmo tempo, o tribunal tem sido rigoroso quanto \u00e0 necessidade de fundamenta\u00e7\u00e3o, afastando fixa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas ou sem respaldo probat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os tribunais estaduais seguem, em geral, a orienta\u00e7\u00e3o do STJ, mas h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es regionais relevantes, especialmente quanto \u00e0 exig\u00eancia ou n\u00e3o de pedido expresso da parte interessada. Conhecer a posi\u00e7\u00e3o do tribunal competente \u00e9 essencial para a defini\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia processual, seja pela acusa\u00e7\u00e3o, seja pela defesa.<\/p>\n<h3>Qual a posi\u00e7\u00e3o do STJ sobre a fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo sem pedido expresso?<\/h3>\n<p>O STJ j\u00e1 se pronunciou no sentido de que a fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo pelo juiz, ainda que sem pedido expresso da v\u00edtima ou do Minist\u00e9rio P\u00fablico, \u00e9 compat\u00edvel com o sistema processual penal. O fundamento \u00e9 que o inciso IV imp\u00f5e um dever ao magistrado, n\u00e3o uma faculdade condicionada \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o das partes.<\/p>\n<p>Contudo, o pr\u00f3prio tribunal ressalva que a aus\u00eancia de contradit\u00f3rio espec\u00edfico sobre o valor pode comprometer a fundamenta\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o. Quando o r\u00e9u n\u00e3o teve oportunidade de se manifestar sobre o montante pretendido, a fixa\u00e7\u00e3o pode ser questionada por viola\u00e7\u00e3o ao devido processo legal.<\/p>\n<p>H\u00e1 julgados do STJ que reformaram valores fixados sem base probat\u00f3ria adequada nos autos, refor\u00e7ando que o inciso IV n\u00e3o autoriza arbitramento livre. O valor deve corresponder ao que foi efetivamente demonstrado no processo criminal.<\/p>\n<h3>\u00c9 poss\u00edvel impetrar Habeas Corpus para impugnar o valor fixado?<\/h3>\n<p>Em regra, n\u00e3o. O habeas corpus \u00e9 instrumento voltado \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da liberdade de locomo\u00e7\u00e3o. Como o cap\u00edtulo da senten\u00e7a que fixa o valor m\u00ednimo de repara\u00e7\u00e3o tem natureza patrimonial, e n\u00e3o afeta diretamente a liberdade do condenado, o STJ e o STF entendem que o habeas corpus n\u00e3o \u00e9 a via adequada para discutir esse ponto.<\/p>\n<p>A impugna\u00e7\u00e3o correta do valor fixado no inciso IV deve ser feita por meio do <strong>recurso de apela\u00e7\u00e3o<\/strong>, que permite revis\u00e3o ampla de toda a senten\u00e7a condenat\u00f3ria, incluindo os cap\u00edtulos de natureza civil.<\/p>\n<p>Excepcionalmente, em situa\u00e7\u00f5es de flagrante ilegalidade ou teratologia evidente, alguns tribunais admitem o conhecimento do habeas corpus mesmo em mat\u00e9ria patrimonial, mas essa \u00e9 uma hip\u00f3tese residual e n\u00e3o a regra aplicada pelo STJ.<\/p>\n<h3>Como atacar recursalmente o cap\u00edtulo da senten\u00e7a sobre o valor m\u00ednimo?<\/h3>\n<p>O recurso cab\u00edvel \u00e9 a <strong>apela\u00e7\u00e3o criminal<\/strong>, prevista no artigo 593 do CPP. Como o cap\u00edtulo referente ao inciso IV integra a senten\u00e7a condenat\u00f3ria, ele pode ser impugnado junto com os demais pontos ou de forma isolada, caso o recorrente queira limitar o objeto do recurso.<\/p>\n<p>Na apela\u00e7\u00e3o, a defesa pode argumentar que o valor foi fixado sem base probat\u00f3ria suficiente, que n\u00e3o houve contradit\u00f3rio adequado sobre esse ponto, ou que o montante \u00e9 desproporcional ao dano demonstrado nos autos. Cada um desses argumentos exige fundamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e indica\u00e7\u00e3o das provas que sustentam a tese.<\/p>\n<p>Outra possibilidade, antes da apela\u00e7\u00e3o, \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o de <strong>embargos de declara\u00e7\u00e3o<\/strong> para provocar o ju\u00edzo de primeiro grau a esclarecer a fundamenta\u00e7\u00e3o do valor ou a suprir eventual omiss\u00e3o. Essa etapa pode ser estrategicamente \u00fatil para construir o registro necess\u00e1rio para o recurso subsequente. Para entender melhor o <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/artigo-600-4o-do-codigo-de-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">regramento dos recursos no processo penal<\/a>, \u00e9 importante conhecer as disposi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do CPP sobre o tema.<\/p>\n<h2>O Art. 387, IV se Aplica a Crimes Ambientais?<\/h2>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o do inciso IV a crimes ambientais \u00e9 poss\u00edvel, mas exige aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o do ofendido. Nos crimes ambientais, o bem jur\u00eddico protegido \u00e9, em regra, difuso ou coletivo, o que dificulta a individualiza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima direta que receberia o valor fixado.<\/p>\n<p>A doutrina e a jurisprud\u00eancia reconhecem que, nesses casos, o valor m\u00ednimo pode ser fixado em favor do fundo de repara\u00e7\u00e3o ambiental ou de \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico competente para restaura\u00e7\u00e3o do bem lesado. A l\u00f3gica \u00e9 preservar a finalidade reparat\u00f3ria do dispositivo mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 v\u00edtima individual identific\u00e1vel.<\/p>\n<p>Crimes ambientais com v\u00edtimas concretas e identific\u00e1veis, como a contamina\u00e7\u00e3o de propriedade particular, permitem a aplica\u00e7\u00e3o direta do inciso IV em favor do propriet\u00e1rio prejudicado. O desafio maior est\u00e1 nos crimes que afetam ecossistemas ou recursos naturais de uso comum.<\/p>\n<h3>Como a jurisprud\u00eancia trata o ofendido nos crimes ambientais?<\/h3>\n<p>Os tribunais t\u00eam reconhecido que, nos crimes ambientais de natureza difusa, o conceito de ofendido se expande para abranger a coletividade. Nesse contexto, o Minist\u00e9rio P\u00fablico atua como substituto processual dos interesses difusos e pode formular pedido de fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo em favor do fundo ambiental.<\/p>\n<p>H\u00e1 decis\u00f5es que determinaram o pagamento do valor fixado ao FNMA (Fundo Nacional do Meio Ambiente) ou a fundos estaduais equivalentes, reconhecendo que a finalidade reparat\u00f3ria do inciso IV deve ser preservada mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 v\u00edtima individual.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de consenso pleno na jurisprud\u00eancia sobre esse ponto refor\u00e7a a import\u00e2ncia de uma defesa t\u00e9cnica que conhe\u00e7a os precedentes regionais aplic\u00e1veis ao caso concreto. Uma estrat\u00e9gia bem fundamentada pode questionar tanto a identifica\u00e7\u00e3o do benefici\u00e1rio quanto o valor fixado.<\/p>\n<h3>A Lei Contra o Abuso de Autoridade tamb\u00e9m prev\u00ea fixa\u00e7\u00e3o de valor m\u00ednimo?<\/h3>\n<p>A Lei n. 13.869\/2019, que trata dos crimes de abuso de autoridade, tem disposi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias sobre repara\u00e7\u00e3o de danos. O artigo 6\u00ba da lei estabelece san\u00e7\u00f5es de natureza civil e administrativa que podem ser aplicadas cumulativamente \u00e0s penais, incluindo a indeniza\u00e7\u00e3o ao ofendido.<\/p>\n<p>No entanto, a fixa\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo nos termos do art. 387, IV do CPP tamb\u00e9m se aplica \u00e0s condena\u00e7\u00f5es por crimes de abuso de autoridade, uma vez que se trata de regra geral do processo penal. As normas s\u00e3o complementares.<\/p>\n<p>A particularidade nos crimes de abuso de autoridade est\u00e1 na identifica\u00e7\u00e3o clara da v\u00edtima, que geralmente \u00e9 a pessoa f\u00edsica ou jur\u00eddica diretamente prejudicada pelo ato abusivo. Isso facilita a aplica\u00e7\u00e3o do inciso IV e a fundamenta\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo com base nos danos demonstrados no processo.<\/p>\n<h2>Qual o Prazo para Executar o Valor Fixado no Art. 387, IV?<\/h2>\n<p>Com o tr\u00e2nsito em julgado da senten\u00e7a condenat\u00f3ria, o valor m\u00ednimo fixado no inciso IV converte-se em t\u00edtulo executivo judicial. A v\u00edtima, ou seus sucessores, pode ingressar com a\u00e7\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o no ju\u00edzo c\u00edvel competente para cobrar esse montante.<\/p>\n<p>A execu\u00e7\u00e3o c\u00edvel do t\u00edtulo formado pela senten\u00e7a criminal segue as regras do C\u00f3digo de Processo Civil quanto ao procedimento. A v\u00edtima n\u00e3o precisa provar novamente a responsabilidade do r\u00e9u, pois isso j\u00e1 foi estabelecido na senten\u00e7a condenat\u00f3ria com tr\u00e2nsito em julgado.<\/p>\n<p>\u00c9 importante distinguir o valor m\u00ednimo fixado no inciso IV, que pode ser executado diretamente, da repara\u00e7\u00e3o integral do dano, que pode exigir a\u00e7\u00e3o de conhecimento complementar na esfera c\u00edvel para apurar o valor exato e superar o patamar m\u00ednimo estabelecido na senten\u00e7a criminal.<\/p>\n<h3>Qual o prazo prescricional para a a\u00e7\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o do valor m\u00ednimo?<\/h3>\n<p>O prazo prescricional para executar o valor fixado na senten\u00e7a criminal \u00e9 o <strong>prazo geral de tr\u00eas anos<\/strong> para pretens\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o civil, conforme o artigo 206, par\u00e1grafo 3\u00ba, inciso V, do C\u00f3digo Civil. Esse prazo come\u00e7a a correr do tr\u00e2nsito em julgado da senten\u00e7a condenat\u00f3ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 discuss\u00e3o doutrin\u00e1ria sobre a aplicabilidade de outros prazos dependendo da natureza do dano, mas a posi\u00e7\u00e3o mais consolidada na jurisprud\u00eancia aponta para o prazo trienal como regra.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/prescricao-intercorrente-no-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">prescri\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito penal<\/a> tem regras pr\u00f3prias e n\u00e3o se confunde com o prazo prescricional da execu\u00e7\u00e3o civil do valor m\u00ednimo. S\u00e3o institutos distintos que correm em esferas separadas. A v\u00edtima que n\u00e3o exercer o direito de executar o t\u00edtulo dentro do prazo civil poder\u00e1 perd\u00ea-lo por prescri\u00e7\u00e3o, mesmo que o r\u00e9u ainda esteja cumprindo pena.<\/p>\n<h3>\u00c9 poss\u00edvel revis\u00e3o criminal para discutir o valor fixado na senten\u00e7a?<\/h3>\n<p>A revis\u00e3o criminal \u00e9 cab\u00edvel para desconstituir a senten\u00e7a condenat\u00f3ria nas hip\u00f3teses taxativamente previstas no CPP, como contrariedade ao texto expresso da lei, senten\u00e7a fundada em depoimento falso ou nova prova da inoc\u00eancia do r\u00e9u. N\u00e3o \u00e9 o instrumento adequado para discutir o valor m\u00ednimo fixado no inciso IV.<\/p>\n<p>O valor m\u00ednimo integra a senten\u00e7a como cap\u00edtulo patrimonial e sua impugna\u00e7\u00e3o, na fase p\u00f3s-tr\u00e2nsito em julgado, deve ocorrer preferencialmente na esfera c\u00edvel, onde o executado pode opor embargos \u00e0 execu\u00e7\u00e3o discutindo eventual excesso ou inadequa\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Caso a senten\u00e7a condenat\u00f3ria seja desconstitu\u00edda por revis\u00e3o criminal, o cap\u00edtulo referente ao valor m\u00ednimo tamb\u00e9m perde efic\u00e1cia, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 mais condena\u00e7\u00e3o que lhe sirva de base. Essa \u00e9 a \u00fanica hip\u00f3tese em que a revis\u00e3o criminal afeta indiretamente o valor fixado no inciso IV.<\/p>\n<h2>Perguntas Frequentes sobre o Art. 387, IV do CPP<\/h2>\n<p>Algumas d\u00favidas sobre o inciso IV aparecem com frequ\u00eancia tanto na pr\u00e1tica forense quanto entre quem busca entender o funcionamento do sistema processual penal. As respostas a seguir sintetizam os pontos mais relevantes.<\/p>\n<p>Conhecer essas respostas ajuda tanto a v\u00edtima que quer saber como acessar a repara\u00e7\u00e3o quanto o r\u00e9u e sua defesa que precisam entender os limites e as possibilidades de contesta\u00e7\u00e3o do valor fixado na senten\u00e7a.<\/p>\n<h3>O valor m\u00ednimo fixado na senten\u00e7a pode ser aumentado na esfera c\u00edvel?<\/h3>\n<p>Sim. O valor fixado no inciso IV representa um <strong>piso m\u00ednimo<\/strong>, n\u00e3o uma liquida\u00e7\u00e3o definitiva do dano. A v\u00edtima tem plena legitimidade para ajuizar a\u00e7\u00e3o c\u00edvel complementar buscando a repara\u00e7\u00e3o integral, caso o dano real supere o montante estabelecido na senten\u00e7a criminal.<\/p>\n<p>Na a\u00e7\u00e3o c\u00edvel complementar, a responsabilidade do r\u00e9u n\u00e3o precisar\u00e1 ser rediscutida, pois j\u00e1 foi reconhecida pela senten\u00e7a condenat\u00f3ria com tr\u00e2nsito em julgado. A discuss\u00e3o ficar\u00e1 restrita ao valor adicional pretendido e \u00e0 prova do dano que n\u00e3o foi apurado no processo criminal.<\/p>\n<p>Essa possibilidade de complementa\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente relevante em crimes que causam danos de longa dura\u00e7\u00e3o, como les\u00f5es corporais graves com sequelas permanentes, onde o impacto econ\u00f4mico total s\u00f3 pode ser mensurado ao longo do tempo.<\/p>\n<h3>O que acontece se a senten\u00e7a for omissa quanto ao inciso IV?<\/h3>\n<p>Se o juiz deixar de se manifestar sobre o valor m\u00ednimo na senten\u00e7a condenat\u00f3ria, a parte interessada deve, em primeiro lugar, opor <strong>embargos de declara\u00e7\u00e3o<\/strong> para suprir a omiss\u00e3o. Esse recurso tem prazo curto e deve ser interposto antes da apela\u00e7\u00e3o para n\u00e3o comprometer a preclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Caso os embargos de declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o sejam opostos ou sejam rejeitados, o ponto pode ser suscitado na <strong>apela\u00e7\u00e3o criminal<\/strong>, tanto pela v\u00edtima (por meio da assist\u00eancia de acusa\u00e7\u00e3o) quanto pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, pedindo que o tribunal fixe o valor ou determine o retorno dos autos para que o ju\u00edzo de primeiro grau o fa\u00e7a.<\/p>\n<p>A omiss\u00e3o da senten\u00e7a quanto ao inciso IV n\u00e3o gera nulidade autom\u00e1tica nem impede o tr\u00e2nsito em julgado dos demais cap\u00edtulos da decis\u00e3o. A v\u00edtima que n\u00e3o provocar a corre\u00e7\u00e3o dessa omiss\u00e3o dentro das vias recursais adequadas ter\u00e1 que buscar a repara\u00e7\u00e3o integral pela a\u00e7\u00e3o civil ex delicto, sem o benef\u00edcio do t\u00edtulo executivo constitu\u00eddo na senten\u00e7a criminal. Para compreender melhor como funciona o <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/procedimento-comum-ordinario-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">procedimento comum ordin\u00e1rio no processo penal<\/a>, incluindo as fases em que esses temas surgem, \u00e9 \u00fatil conhecer o rito em sua integralidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O inciso IV do artigo 387 do C\u00f3digo de Processo Penal determina que, ao proferir senten\u00e7a condenat\u00f3ria, o juiz deve fixar um valor m\u00ednimo para repara\u00e7\u00e3o dos danos causados pela infra\u00e7\u00e3o penal, considerando os preju\u00edzos sofridos pelo ofendido. 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