{"id":3872,"date":"2026-04-01T19:30:05","date_gmt":"2026-04-01T22:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/medidas-cautelares-processo-penal-art-319\/"},"modified":"2026-04-01T19:30:14","modified_gmt":"2026-04-01T22:30:14","slug":"medidas-cautelares-processo-penal-art-319","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/medidas-cautelares-processo-penal-art-319\/","title":{"rendered":"Medidas Cautelares no Processo Penal: Guia do Art. 319"},"content":{"rendered":"<p>O artigo 319 do C\u00f3digo de Processo Penal re\u00fane as medidas cautelares diversas da pris\u00e3o, ou seja, restri\u00e7\u00f5es que o juiz pode impor ao investigado ou r\u00e9u sem precisar decret\u00e1-lo preso. S\u00e3o alternativas legais que permitem garantir a ordem processual e a seguran\u00e7a p\u00fablica sem recorrer ao encarceramento como primeira resposta.<\/p>\n<p>Essas medidas v\u00e3o desde o uso de tornozeleira eletr\u00f4nica at\u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o de frequentar determinados lugares ou de manter contato com certas pessoas. Cada uma delas tem um prop\u00f3sito espec\u00edfico e deve ser aplicada com base em crit\u00e9rios objetivos previstos no pr\u00f3prio C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p>\n<p>Para quem est\u00e1 sendo investigado, indiciado ou r\u00e9u em um processo criminal, entender o funcionamento dessas medidas \u00e9 fundamental. Elas afetam diretamente a rotina, o trabalho e a liberdade de ir e vir, e seu descumprimento pode levar \u00e0 pris\u00e3o preventiva. Por isso, conhecer seus limites, seus requisitos e suas consequ\u00eancias faz parte de qualquer estrat\u00e9gia de defesa bem constru\u00edda.<\/p>\n<h2>O que s\u00e3o as medidas cautelares no processo penal?<\/h2>\n<p>Medidas cautelares s\u00e3o provid\u00eancias jur\u00eddicas de car\u00e1ter provis\u00f3rio aplicadas no curso de uma investiga\u00e7\u00e3o ou processo penal. Sua finalidade \u00e9 preservar a efetividade da persecu\u00e7\u00e3o penal, proteger a sociedade ou garantir que o investigado n\u00e3o frustre a aplica\u00e7\u00e3o da lei.<\/p>\n<p>Elas existem porque nem toda situa\u00e7\u00e3o justifica uma pris\u00e3o. Em muitos casos, restri\u00e7\u00f5es pontuais j\u00e1 s\u00e3o suficientes para atingir os objetivos que a lei busca proteger. A pris\u00e3o, por sua vez, \u00e9 reservada para situa\u00e7\u00f5es em que essas medidas se mostram insuficientes.<\/p>\n<p>No <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/o-que-significa-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">processo penal brasileiro<\/a>, as medidas cautelares est\u00e3o organizadas em dois grandes grupos:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Medidas cautelares pessoais:<\/strong> afetam a liberdade do indiv\u00edduo, como as previstas no artigo 319 do CPP e a pr\u00f3pria pris\u00e3o preventiva.<\/li>\n<li><strong>Medidas cautelares reais:<\/strong> recaem sobre o patrim\u00f4nio, como o sequestro e o arresto de bens.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O foco deste texto s\u00e3o as medidas pessoais diversas da pris\u00e3o, disciplinadas pelo artigo 319. Elas representam uma evolu\u00e7\u00e3o do sistema penal em dire\u00e7\u00e3o a respostas mais proporcionais e menos traum\u00e1ticas do que o encarceramento imediato.<\/p>\n<h2>Quais s\u00e3o as medidas previstas no artigo 319 do CPP?<\/h2>\n<p>O artigo 319 do CPP lista nove medidas cautelares que podem ser aplicadas de forma isolada ou combinada. Cada uma tem um perfil de aplica\u00e7\u00e3o distinto, voltado para diferentes tipos de risco que o caso concreto pode apresentar.<\/p>\n<p>S\u00e3o elas:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Comparecimento peri\u00f3dico em ju\u00edzo<\/strong>, para informar e justificar atividades.<\/li>\n<li><strong>Proibi\u00e7\u00e3o de acesso ou frequ\u00eancia a determinados lugares<\/strong>, quando o retorno ao local pode representar risco.<\/li>\n<li><strong>Proibi\u00e7\u00e3o de manter contato com pessoa determinada<\/strong>, especialmente v\u00edtimas, testemunhas ou corr\u00e9us.<\/li>\n<li><strong>Proibi\u00e7\u00e3o de ausentar-se da Comarca<\/strong>, sem autoriza\u00e7\u00e3o judicial.<\/li>\n<li><strong>Recolhimento domiciliar<\/strong> no per\u00edodo noturno e nos dias de folga.<\/li>\n<li><strong>Suspens\u00e3o do exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica ou atividade econ\u00f4mica<\/strong>, quando o crime tiver rela\u00e7\u00e3o com esse exerc\u00edcio.<\/li>\n<li><strong>Interna\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria<\/strong>, nos casos de inimputabilidade ou semi-imputabilidade.<\/li>\n<li><strong>Fian\u00e7a<\/strong>, quando cab\u00edvel nos termos do CPP.<\/li>\n<li><strong>Monitora\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica<\/strong>, por meio de dispositivo de rastreamento.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A escolha entre essas medidas n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria. Ela deve ser orientada pela natureza do crime, pelo comportamento do acusado e pelo risco que cada situa\u00e7\u00e3o concreta representa, conforme os par\u00e2metros do artigo 282 do mesmo c\u00f3digo.<\/p>\n<h3>Monitora\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica e recolhimento domiciliar<\/h3>\n<p>A monitora\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica \u00e9 feita por meio de um dispositivo, geralmente uma tornozeleira, que permite ao Estado acompanhar a localiza\u00e7\u00e3o do acusado em tempo real. \u00c9 uma das medidas mais utilizadas na pr\u00e1tica, especialmente em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o preventiva ou como condi\u00e7\u00e3o para progress\u00e3o de regime.<\/p>\n<p>Ela pode ser aplicada de forma aut\u00f4noma ou combinada com o recolhimento domiciliar noturno. Nesse segundo caso, o acusado fica obrigado a permanecer em sua resid\u00eancia durante determinadas horas, normalmente \u00e0 noite e nos finais de semana, podendo circular livremente nos demais per\u00edodos.<\/p>\n<p>Essas duas medidas funcionam bem em conjunto porque permitem um controle efetivo da presen\u00e7a do acusado em locais sens\u00edveis, sem retirar completamente sua capacidade de trabalhar, cuidar da fam\u00edlia e manter uma rotina minimamente est\u00e1vel.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da defesa, \u00e9 importante atentar para as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas do dispositivo e para os registros gerados, j\u00e1 que falhas no equipamento podem gerar alertas indevidos e, eventualmente, uma representa\u00e7\u00e3o por descumprimento. Uma defesa atenta acompanha essas intercorr\u00eancias de perto.<\/p>\n<h3>Suspens\u00e3o de fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e presta\u00e7\u00e3o de fian\u00e7a<\/h3>\n<p>A suspens\u00e3o do exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 aplic\u00e1vel quando o crime imputado guarda rela\u00e7\u00e3o direta com o cargo ou fun\u00e7\u00e3o exercida pelo acusado. O objetivo \u00e9 afastar o risco de que ele continue usando sua posi\u00e7\u00e3o para obstruir a investiga\u00e7\u00e3o ou para praticar novos delitos da mesma natureza.<\/p>\n<p>Essa medida n\u00e3o equivale a uma puni\u00e7\u00e3o antecipada nem implica perda do cargo. Trata-se de uma restri\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, de car\u00e1ter processual, que cessa quando a necessidade que a motivou deixa de existir.<\/p>\n<p>J\u00e1 a fian\u00e7a \u00e9 uma garantia financeira prestada pelo acusado em favor do ju\u00edzo, com o objetivo de assegurar seu comparecimento aos atos processuais. Seu valor \u00e9 fixado pelo juiz dentro de par\u00e2metros legais, levando em conta a gravidade do crime, a condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do acusado e as circunst\u00e2ncias do caso.<\/p>\n<p>A fian\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para todos os crimes. A lei prev\u00ea hip\u00f3teses em que ela \u00e9 vedada, como nos crimes de racismo, tortura, tr\u00e1fico de drogas e crimes hediondos. Quando cab\u00edvel, por\u00e9m, pode ser um instrumento eficaz para garantir a liberdade do acusado sem outras restri\u00e7\u00f5es mais gravosas.<\/p>\n<h3>Proibi\u00e7\u00e3o de contato com pessoas e acesso a locais<\/h3>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o de manter contato com determinadas pessoas \u00e9 frequentemente aplicada em casos que envolvem viol\u00eancia dom\u00e9stica, amea\u00e7a a testemunhas ou situa\u00e7\u00f5es em que a v\u00edtima corre risco de sofrer novas agress\u00f5es ou press\u00f5es. Nesse contexto, \u00e9 comum que essa medida apare\u00e7a associada a afastamento do lar e outras restri\u00e7\u00f5es previstas na <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/suspensao-do-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">legisla\u00e7\u00e3o processual penal especial<\/a>.<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o de acesso a locais, por sua vez, \u00e9 voltada para situa\u00e7\u00f5es em que o retorno do acusado a determinado ambiente pode representar risco concreto, seja para a v\u00edtima, para testemunhas ou para a pr\u00f3pria integridade do processo.<\/p>\n<p>Ambas as medidas exigem especificidade. O juiz deve indicar com clareza quais pessoas n\u00e3o podem ser contatadas e quais lugares n\u00e3o podem ser frequentados. Restri\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas ou vagas s\u00e3o juridicamente question\u00e1veis e podem ser objeto de impugna\u00e7\u00e3o pela defesa.<\/p>\n<p>Vale lembrar que o contato proibido abrange qualquer forma de comunica\u00e7\u00e3o direta ou indireta, incluindo mensagens, liga\u00e7\u00f5es e contato por terceiros. O acusado precisa estar ciente exatamente do que est\u00e1 vedado para n\u00e3o incorrer em descumprimento por desconhecimento.<\/p>\n<h2>Qual a diferen\u00e7a entre medidas cautelares e pris\u00f5es?<\/h2>\n<p>A diferen\u00e7a essencial est\u00e1 na intensidade da restri\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade. As medidas cautelares do artigo 319 limitam determinados comportamentos ou imp\u00f5em obriga\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, mas permitem que o acusado continue em liberdade. As pris\u00f5es cautelares, como a pris\u00e3o preventiva e a pris\u00e3o tempor\u00e1ria, retiram completamente a liberdade de locomo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra distin\u00e7\u00e3o importante \u00e9 a l\u00f3gica de aplica\u00e7\u00e3o. As medidas do artigo 319 devem ser consideradas antes de qualquer decis\u00e3o por pris\u00e3o. A priva\u00e7\u00e3o de liberdade s\u00f3 se justifica quando essas medidas se mostrarem inadequadas ou insuficientes para o caso concreto. Essa hierarquia est\u00e1 expressa no pr\u00f3prio CPP e reflete o princ\u00edpio da proporcionalidade.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso significa que o juiz n\u00e3o pode decretar uma pris\u00e3o preventiva sem antes avaliar se alguma das medidas alternativas seria suficiente para atingir o mesmo objetivo. Ignorar essa etapa representa uma ilegalidade que pode ser combatida por meio de <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/agravo-de-instrumento-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recurso ou impugna\u00e7\u00e3o processual cab\u00edvel<\/a>.<\/p>\n<h3>A pris\u00e3o preventiva como ultima ratio no sistema penal<\/h3>\n<p>O conceito de <em>ultima ratio<\/em> aplicado \u00e0 pris\u00e3o preventiva significa que ela deve ser o \u00faltimo recurso, utilizado somente quando todas as outras possibilidades se mostrarem insuficientes. N\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o ret\u00f3rica, mas uma diretriz legal concreta prevista no CPP.<\/p>\n<p>O artigo 282, par\u00e1grafo 6\u00ba, do CPP \u00e9 expl\u00edcito ao determinar que a pris\u00e3o preventiva s\u00f3 ser\u00e1 determinada quando n\u00e3o for cab\u00edvel a sua substitui\u00e7\u00e3o por outra medida cautelar. Esse dispositivo vincula o juiz a uma an\u00e1lise pr\u00e9via e fundamentada sobre a adequa\u00e7\u00e3o das medidas alternativas.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, decis\u00f5es que decretam pris\u00e3o preventiva sem enfrentar esse ponto s\u00e3o consideradas carentes de fundamenta\u00e7\u00e3o id\u00f4nea, o que abre espa\u00e7o para questionamento pela defesa. O simples reconhecimento da gravidade do crime, sem an\u00e1lise das circunst\u00e2ncias individuais do acusado, n\u00e3o \u00e9 suficiente para justificar o encarceramento cautelar.<\/p>\n<p>Entender o <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/processo-penal-o-que-e\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">funcionamento do processo penal<\/a> e a l\u00f3gica que orienta as decis\u00f5es cautelares \u00e9 indispens\u00e1vel para identificar quando uma pris\u00e3o foi decretada de forma desproporcional e contest\u00e1-la com fundamento t\u00e9cnico s\u00f3lido.<\/p>\n<h2>Como o artigo 282 orienta a aplica\u00e7\u00e3o do artigo 319?<\/h2>\n<p>O artigo 282 do CPP funciona como a norma geral que rege todas as medidas cautelares pessoais no processo penal, incluindo aquelas listadas no artigo 319. Ele estabelece os dois crit\u00e9rios centrais que qualquer medida cautelar deve satisfazer: necessidade e adequa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o artigo 282 define que as medidas podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, podem ser substitu\u00eddas por outras mais adequadas quando as circunst\u00e2ncias mudarem e devem ser revogadas quando a causa que as motivou deixar de existir.<\/p>\n<p>Esse sistema cria uma din\u00e2mica de revis\u00e3o cont\u00ednua. A situa\u00e7\u00e3o do acusado n\u00e3o fica congelada na decis\u00e3o inicial. Se o contexto muda, a medida pode e deve ser reavaliada, tanto para se tornar mais restritiva quanto para ser afrouxada ou revogada. A defesa pode e deve provocar essa revis\u00e3o sempre que houver elementos novos que a justifiquem.<\/p>\n<p>Compreender a rela\u00e7\u00e3o entre os artigos 282 e 319 \u00e9 essencial para avaliar a legalidade de qualquer medida cautelar imposta, especialmente quando ela parecer desproporcional \u00e0s circunst\u00e2ncias reais do caso.<\/p>\n<h3>Os crit\u00e9rios de necessidade e adequa\u00e7\u00e3o das medidas<\/h3>\n<p>O crit\u00e9rio da <strong>necessidade<\/strong> exige que a medida seja indispens\u00e1vel para atingir um dos objetivos legais: investiga\u00e7\u00e3o criminal, ordem p\u00fablica, ordem econ\u00f4mica, conveni\u00eancia da instru\u00e7\u00e3o processual ou aplica\u00e7\u00e3o da lei penal. Se nenhum desses fins estiver concretamente amea\u00e7ado, a imposi\u00e7\u00e3o de qualquer medida cautelar carece de base legal.<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio da <strong>adequa\u00e7\u00e3o<\/strong> exige que a medida escolhida seja compat\u00edvel com a gravidade do crime, com as circunst\u00e2ncias do fato e com as condi\u00e7\u00f5es pessoais do acusado. Uma medida desproporcionalmente restritiva para um caso de baixa complexidade \u00e9 t\u00e3o irregular quanto a aus\u00eancia de qualquer medida em um caso de alto risco.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, esses dois crit\u00e9rios funcionam como filtros que o juiz deve percorrer antes de qualquer decis\u00e3o cautelar. Uma medida necess\u00e1ria pode ser inadequada para aquele acusado espec\u00edfico. Uma medida adequada ao perfil do acusado pode ser desnecess\u00e1ria diante das circunst\u00e2ncias do caso.<\/p>\n<p>Quando a decis\u00e3o judicial n\u00e3o demonstra, de forma concreta e individualizada, como esses crit\u00e9rios foram satisfeitos, h\u00e1 um v\u00edcio de fundamenta\u00e7\u00e3o que pode ser explorado pela defesa, especialmente em recursos e habeas corpus. Esse tipo de controle t\u00e9cnico \u00e9 parte central do trabalho de um <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/exemplo-de-nulidade-absoluta-no-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">advogado atento \u00e0s nulidades processuais<\/a>.<\/p>\n<h2>O que acontece em caso de descumprimento das medidas?<\/h2>\n<p>O descumprimento de qualquer medida cautelar imposta com base no artigo 319 tem consequ\u00eancias processuais graves. O juiz pode, dependendo das circunst\u00e2ncias, substituir a medida por outra mais restritiva, aplicar medidas cumulativas ou, em \u00faltima an\u00e1lise, decretar a pris\u00e3o preventiva do acusado.<\/p>\n<p>O procedimento exige que haja uma representa\u00e7\u00e3o formal, geralmente do Minist\u00e9rio P\u00fablico ou da autoridade policial, demonstrando o descumprimento. O acusado deve ter a oportunidade de se manifestar sobre os fatos, salvo em situa\u00e7\u00f5es de urg\u00eancia em que a resposta imediata seja necess\u00e1ria para evitar dano concreto.<\/p>\n<p>\u00c9 importante distinguir o descumprimento intencional do descumprimento involunt\u00e1rio. Uma falha t\u00e9cnica na tornozeleira, uma aus\u00eancia justificada ou um mal-entendido sobre o alcance da restri\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam o mesmo peso jur\u00eddico que uma viola\u00e7\u00e3o deliberada e reiterada. A defesa pode e deve apresentar essa distin\u00e7\u00e3o de forma clara ao ju\u00edzo.<\/p>\n<h3>A progressividade e a substitui\u00e7\u00e3o por pris\u00e3o preventiva<\/h3>\n<p>O sistema cautelar do CPP \u00e9 constru\u00eddo sobre uma l\u00f3gica de progressividade. Isso significa que, diante do descumprimento, a resposta natural n\u00e3o \u00e9 necessariamente a pris\u00e3o imediata, mas a substitui\u00e7\u00e3o ou cumula\u00e7\u00e3o por medida mais gravosa que ainda preserve a liberdade do acusado.<\/p>\n<p>Por exemplo, se o acusado descumpre a obriga\u00e7\u00e3o de comparecer periodicamente em ju\u00edzo, o juiz pode determinar o uso de tornozeleira eletr\u00f4nica antes de cogitar a pris\u00e3o. Se a tornozeleira j\u00e1 est\u00e1 em uso e h\u00e1 descumprimento do per\u00edmetro, pode-se acrescentar o recolhimento domiciliar integral.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o preventiva, nesse contexto, aparece como resposta ao esgotamento das possibilidades anteriores, n\u00e3o como rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica ao primeiro descumprimento. Decis\u00f5es que decretam pris\u00e3o de imediato, sem percorrer essa escala, s\u00e3o pass\u00edveis de questionamento.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da defesa, acompanhar de perto o cumprimento das medidas, registrar eventuais irregularidades e comunicar ao advogado qualquer dificuldade antes que ela se transforme em um incidente processual \u00e9 a melhor forma de evitar que uma situa\u00e7\u00e3o gerenci\u00e1vel evolua para uma decreta\u00e7\u00e3o de pris\u00e3o.<\/p>\n<h2>Quais os requisitos legais para imposi\u00e7\u00e3o de cautelares?<\/h2>\n<p>Para que qualquer medida cautelar seja validamente imposta, o CPP exige a presen\u00e7a de dois elementos: o <em>fumus comissi delicti<\/em> e o <em>periculum libertatis<\/em>. O primeiro \u00e9 a fuma\u00e7a do cometimento do delito, ou seja, ind\u00edcios razo\u00e1veis de que o acusado praticou o crime. O segundo \u00e9 o perigo que sua liberdade representa para o processo ou para a sociedade.<\/p>\n<p>Esses dois requisitos devem estar demonstrados de forma concreta na decis\u00e3o judicial. N\u00e3o basta a simples men\u00e7\u00e3o \u00e0s express\u00f5es latinas ou a refer\u00eancia gen\u00e9rica \u00e0 gravidade do crime. O juiz precisa indicar quais elementos concretos do caso justificam a medida escolhida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a decis\u00e3o deve ser fundamentada, individualizada e proporcional. Uma decis\u00e3o que copia trechos de outras decis\u00f5es sem analisar as particularidades do caso concreto \u00e9 considerada ausente de fundamenta\u00e7\u00e3o id\u00f4nea pela jurisprud\u00eancia dos tribunais superiores.<\/p>\n<p>Outros pontos que a defesa deve verificar:<\/p>\n<ul>\n<li>Se a medida foi imposta em decis\u00e3o fundamentada ou de forma autom\u00e1tica.<\/li>\n<li>Se houve an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es pessoais do acusado, como resid\u00eancia fixa, emprego l\u00edcito e bons antecedentes.<\/li>\n<li>Se a medida escolhida \u00e9 proporcional ao crime imputado.<\/li>\n<li>Se o acusado foi ouvido antes da decis\u00e3o, nos casos em que isso \u00e9 exigido.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A an\u00e1lise t\u00e9cnica desses requisitos \u00e9 o ponto de partida para qualquer estrat\u00e9gia de defesa voltada \u00e0 revis\u00e3o de medidas cautelares. Saber identificar quando eles n\u00e3o foram corretamente preenchidos \u00e9 o que permite questionar decis\u00f5es judiciais com efetividade. Para isso, \u00e9 fundamental compreender os <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/tipos-de-provas-processo-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tipos de provas que fundamentam decis\u00f5es no processo penal<\/a> e como elas se relacionam com a forma\u00e7\u00e3o do convencimento judicial sobre a necessidade das cautelares.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale atentar para o v\u00ednculo entre as cautelares e o princ\u00edpio da interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima. O <a href=\"https:\/\/joaocarlospinheiro.adv.br\/criminal\/intervencao-minima-direito-penal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">princ\u00edpio da interven\u00e7\u00e3o m\u00ednima no direito penal<\/a> refor\u00e7a que o Estado deve usar os meios menos gravosos dispon\u00edveis antes de recorrer a restri\u00e7\u00f5es mais intensas, l\u00f3gica que se aplica diretamente \u00e0 escolha entre medidas cautelares e pris\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo 319 do C\u00f3digo de Processo Penal re\u00fane as medidas cautelares diversas da pris\u00e3o, ou seja, restri\u00e7\u00f5es que o juiz pode impor ao investigado ou r\u00e9u sem precisar decret\u00e1-lo preso. S\u00e3o alternativas legais que permitem garantir a ordem processual e a seguran\u00e7a p\u00fablica sem recorrer ao encarceramento como primeira resposta. 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